300º ANDAR

Terceira comemoração centesimal e a certeza de que este Bilhete veio para ficar. Já não me vejo sem ele e confirmo o exercício de aquecimento de uma aula de escrita criativa, em que se pedia em 30 segundos para justificar o porquê de escrever:

Escrevo, pelo fascínio de amontoar palavras de tijolo para construir edificios de leitura.

É essa construcção diária que me traz aqui todos os dias para colocar mais um tijolo. Agora que cheguei ao 300º andar ainda me surpreendo com a altura alcançada. Aqui em cima o ar já tem outro peso literário e por vezes é preciso respirar palavras e mais palavras para aguentar a pressão atmosférica da escrita.

Cada tijolo colocado, cada degrau subido, cada Bilhete emitido tiveram o condão de me fazer ler mais, de me ensinar a escrever, de me impulsionar na partilha de palavras e na descoberta de um mundo novo. Tenho vivido com livros, tenho rodeado os dias de acontecimentos literários, tenho respirado e absorvido influências escritas e trocas de leitura.




Sinto o vício das palavras a correr nas veias da escrita e espero chegar ao céu da criatividade, colocando cada vez mais e mais tijolos. O meu edifício de leitura irá continuar a emitir Bilhetes de Ida, assim me ajude a imaginação e a vontade.

Obrigado a todos os que foram subindo os degraus e que foram colocando massa crítica para segurar esta construção partilhada. É minha a vontade que a cria, é vossa a razão que a habita.

Pérolas da Sintaxe - 2

- Queria uma factura, por favor.
- Concerteza. Em que nome fica?
- É em nome da empresa. São só siglas: A... N... C...
- C de sapato?
- ...


Ainda pensei responder que não, que era com S de caixa, mas engasguei-me no riso contido e não consegui.

Funcionária Anónima
(Bilheteira da CP em Aveiro)

M18 - Contos Lúbricos XII (temperaturas pendulares*)

A 220 km por hora, os olhares cruzaram-se. Entenderam-se. Gostaram-se. As paragens seguintes foram em jogo de sedução. Olhar para cá, olhar para lá, esboços de sorrisos disfarçados, seguidos de sorrisos escandalosos.

Tudo parecia correr sobre carris. As vontades deslizavam no mesmo sentido e o jogo continuava. Ela abriu mais um botão da camisa e deixou antever uns voluptuosos seios, cercados por uma renda preta que insistia em espreitar. Ele agradeceu o vislumbre com um sorriso lascivo. O volume nas suas calças aumentou. Levantou-se para que ela o visse.




Uma passagem de revisor mais à frente, e ela vem na sua direcção com uma determinação sensual. O botão estava de novo apertado, mas o desejo dos seus seios não se conseguia disfarçar. Dois eróticos e excitados mamilos pareciam querer romper a camisa que os sufocava. O mundo olhava para eles, mas eles só olhavam um para o outro. Ao passar por ele, sussurrou:

- Daqui a 5 minutos no WC da esquerda. Duas pancadas, pausa, três pancadas.

Uma bola de fogo lúbrico percorreu o seu corpo em excitação antecipada. Esperou ansiosamente que passassem aqueles que foram, sem dúvida, os maiores e mais demorados 5 minutos da sua vida. Finalmente passados, dirigiu-se à porta indicada. Bateu duas vezes, esperou, bateu três vezes. A porta abriu e fechou num pasmar de olhos.

Lá dentro, os olhos reencontraram-se. Os risos reconheceram-se e os cheiros conheceram-se. As bocas juntaram-se sem palavras. As respectivas excitações ainda lá estavam. O espaço era lascivamente pequeno e o afastamento era felizmente impensável. Entre os corpos só cabia o calor da roupa a mais e as peles ansiosas de contacto, gritavam por liberdade. Concedida. Na medida do impossível, desapertou-se o que havia para desapertar.

Ela sentou-se no tampo da pequena sanita e entregou-se à descoberta do volume antes visto e imediatamente abocanhado. Um gemido contido dele, ecoou no pequeno cubículo. Sentiu a língua dela na sua intimidade oferecida e agradeceu mentalmente aquela viagem. Decidiu agradecer mais que isso e trocaram de posição.

Agora ela de pé. Num gesto quase maternal afagou a cabeça cuja boca já lambia com volúpia os seios que se confirmavam fartos. Continuou a descida exploratória e por baixo de um ventre perfumado arrancaram-se cuecas à dentada. Ela sentiu-se a escorrer por dentro, enquanto outros lábios se juntavam aos outros seus lambendo todo o seu desejo húmido.

Sem aguentar mais, ela sentou-se na explosiva erecção que aguardava impaciente o seu interior. Desta vez o gemido foi duplo. O balançar da carruagem aumentou o prazer. Lá fora ouviu-se o anunciar indiferente da estação seguinte.

- É a minha. Gemeu ele.
- A minha também. Suspirou ela.




Aceleraram o êxtase na loucura do tempo final e rebentaram em conjunto, mordendo-se de prazer mútuo. Em vez de números de telefone, trocaram orgasmos. Sensações vividas à pressa e vestiram-se no sorriso do cansaço acabado de chegar ao destino.

Lá fora, na plataforma os respectivos compromissos esperavam, por coincidência muito próximos. Beijos e abraços depois, anuncia-se em voz alta o sucesso da viagem e a necessidade de a repetir na semana seguinte.

Negócios da vida pendular!


* - Alfa Pendular, 06 de Fevereiro de 2009 (Aveiro – Lisboa).

Contos deste Ano #4

Maria vai com os outros

Apenas Maria, menina agora de bem, nasceu no fundo de uma bacia depois do esforço de sua mãe. O berço, de outrora latão, foi esquecido a rezar o terço, bem apertado na mão e segundo doutrina de sua religião. Fez-se à vida da conquista, agarrada ao sonho de mais, sem nunca perder de vista, objectivos, desejos e outros que tais.

Cedo estudou pose e altivez de confiança, largou depressa criança e cresceu muito e sempre mais. Já nem era reconhecida pelos próprios pais. Esses mesmo que escondeu numa gaveta, que isto de conquistas endinheiradas é assunto de saias travadas e ai de quem no meio se meta.

Andou por festas e outras andanças, sempre em almofadas de ilusão. Deitou mão e enfeitou testas, deste, daquele e ainda do irmão. Ganhou fama de abertura fatal e engordou cofre de cagança, pois vida ganha na horizontal, nem sempre dá segurança, mas quem muito coisa sempre alcança. Juntou muitos nomes ao que tinha, pomposos o quanto baste, sempre segurando na pontinha da sua bandeira de traste.




De cama em cama viveu na sombra, de vidas ganhas por sangue. Perscrutou vida de abutre, com voos de escolha langue. Aprisionou conquistas de perna, guardou vitórias em rodilha e ainda deixou na camilha cartas de gente terna com toques de muita matilha.

Assim vivia com a luxúria do que ganhava no ano, até que apareceu tal figura, de corpo presente bacano. Perdeu-se de amores em revista, e pela primeira vez a conquista foi do outro, o tal de Elmano. Também ele se deitava a ganhar, vivendo em lençol de jeito quente. Se o queriam sentir e cheirar, pagavam bem e sempre à frente!

Trocada de voltas Maria, foi vitima do que sempre foi, quando viu que o cofre lhe fugia, chamou-lhe para cima de boi. Afinal deixou-se levar por encantos tantas vezes usados, que isto de saber muito trás sempre quem sabe, outros truques igualmente cantados.

E assim se fez volta à origem onde esteve sempre a pia, que esta de novo apenas Maria, sopra agora anos de fuligem e abre gavetas que já não queria. Em jeito de moral e conclusão, diz-se que quem alto voa sem estender a mão, sempre acaba a andar à toa seja de berço de ouro ou talvez não.

Pérolas da Sintaxe

Um com características completamente diferentes um do outro, e por isso jogam bem um com o outro.

Jorge Baptista
(Comentador SIC)

QUEM NÃO TEM CÃO… tem isto!

Não desesperem os pais das criancinhas lesadas, pois a solução já anda por aí. Neste país de atrasos e de atrasados (mentais) há sempre uma volta que esconde a derrota. Azul para os meninos, rosa (não se choquem) para as meninas…




The Sound of Words XII

(convenção mundial de dogmas)

- Oi, venho do Brasiu e me chamo dôgma… dogma circunflexo!
- Olá, venho de Portugal e sou o dogma… dogma desacentuado!
- Olã venhõ dã Tilãndia e sõu o dõgma… dogma til!





Contos de Outrora

MAÇÃS SALGADAS #1

Cheirava a fruta e a medo. A separar, um muro de pedra e areia que se ia desfazendo com o passar dos anos para o lado de lá e dos corajosos em sentido inverso. Sempre foi o grande baptismo daquela escola: conseguir trazer uma maçã para provar a ida. O sabor? Esse podia ser deitado fora.

Quarta-feira de aventuras. Já andava naquela escola há 3 meses e ainda não tinha saltado o muro. Já não conseguia fugir ao ritual de aceitação. Tinha chegado o meu dia.

Regras: saltar o muro que ficava nas traseiras da escola e voltar com uma maçã.

Primeira condicionante: do lado de lá do medo havia uma quinta com muitas árvores.

Segunda condicionante: as de fruta eram as mais longe do muro e as mais perto da casa.

Terceira condicionante: conseguir voltar são e salvo porque, segundo constava, o maluco do velho que lá vivia disparava sobre os miúdos que lá entravam.

Quarta condicionante: disparava mesmo. Embora fossem tiros de sal, faziam uma ferida dolorosa e eram o símbolo da derrota.




O ritual exigia que as regras fossem ditas em voz alta momentos antes da partida. Nesse dia nem as consegui ouvir e deixei que fossem abafadas pelos nervos. Os sons iam para o estômago e na cabeça só ouvia o coração. Já tinha as mãos encostadas à inevitável escalada e ainda hesitava. Os olhares de todos convenceram-me.

Passar para o outro lado era a parte fácil pela execução, mas difícil pelo que se seguia. Quando aterrei no chão que me esperava, estava a suar. As pernas tremiam e o corpo colava-se ao muro. As árvores eram horrivelmente bonitas e assustadoramente convidativas. Caminhei na direcção do cheiro, mas parecia nunca mais lá chegar. A única árvore que tinha maçãs, ficava mesmo junto à janela da casa do velho.

Dois troncos antes do objectivo fruto, parei para respensar (que é uma espécie de respiração do pensamento), acalmei as pulsações e comecei a correr com a determinação mais assustada que tinha. Agarrei a maçã com a pressa da alegria e no regresso vitorioso deixei-a cair.

Voltei atrás para cumprir o destino honroso e no momento em que apanhei o frutado prémio, ouvi um berro que me aqueceu o pânico…


(continua)

FRASEANDO #12

A intuição é aquele estranho instinto que permite a uma mulher saber que está certa, esteja certa ou não.

Helen Rowland

Helen Rowland
(1875-1950)

Três dias, três filmes

Depois de um Sábado a valsar e de um Domingo a trocar, hoje ainda deu para usar o cartão mágico, mais uma vez. Como novidade, um post feito no espaço Medeia com internet grátis para quem tem cartão!

Sem muito tempo, deixo apenas a convicção de que a história é feita de muitas histórias. Esta, que também é verdadeira, impressiona pela força que é preciso para ter coragem e pela coragem que é preciso para continuar a ter força.


Bombating Card*

Estilos completamente diferentes e, por isso mesmo, complementares sem terem nada a ver. Animação sobre a realidade, realidade sobre a ficção e ficção realmente animada. Excelentes desempenhos: dos actores de carne e osso e dos de papel e tinta. Histórias bem pensadas, que pensam connosco e que nos deixam a pensar bem para lá do The End final (também não conheço nenhum que seja no início). Tramas bem tramadas, mas sem trauma: é apenas a realidade!

Tudo isto em dois filmes que se devem ver. Isto é, que não se devem perder. Quer dizer, é uma pena se não forem vistos. Ou seja: façam o favor de os ver, sim?!


A VALSA COM BASHIR





A TROCA




*- Que é como quem diz: dar uso ao cartãozinho mágico!

Playing For Change

Já conhecia de vários blogs e e-mails a versão “Stand by Me” deste movimento virtual, que pretende através da sua fundação (Playing For Change Foudation) ligar o mundo pela música, fornecendo recursos a músicos e às suas comunidades em todo o mundo.

Este movimento virtual, foi criado para inspirar, conectar e trazer paz ao mundo através da música. As versões são sobreposições de músicos de todo o mundo que vão gravando por cima do que está feito, até chegar a um produto final que corresponde à contribuição de todos. Deixo o meu contributo para a causa e a segunda música que filmaram.





P.S.: Podem sempre visitar o site e aderir ao movimento.