M18 – Contos Lúbricos XI (aquecimentos profissionais)

Era uma garagem. Uma garagem suja e cheia de óleo, como é normal numa garagem. Sem contexto nem pudor, ela desaperta o fato-macaco dele enquanto se ajoelha. Uma enorme erecção profissional salta cá para fora enquanto uma mão de grandes unhas vermelhas, não menos profissionais, se agarra ao que estava à vista, deixando transparecer um olhar de pornografia barata. Segundos depois tudo se engolia.

Compassadas viagens de cabeça para a frente e para trás, faziam desaparecer toda aquela excitação nuns lábios de vermelho batido. Líquidos vários pingavam para o chão. Já o traje de mecânico jazia quando ela se levanta ao som da banda sonora, esfregando na subida uns voluptuosos, e vários números acima, seios de silicone.

Uma abertura de pernas treinada, mostra todo o esplendor de uma aparada vontade de receber língua gasta por estas andanças. Exaustivos minutos, lamberam toda a passagem de tempo previsto. Trocavam-se gemidos de forma mecânica e em sentimento imposto.



Dobrada sobre a bancada, pedia por sugestão que se fundissem num só. Desejo concretizado e a mesma erecção desaparecia em fundos de carne experiente. Para a frente e para trás ao ritmo escrito, para a frente e para trás ao ritmo estudado vezes sem conta.

Novos óleos surgem na garagem e muda-se a penetração. Agora mais em cima porque o sucesso é garantido. Mais fundo, mais forte, mais depressa, pede ela. Ele corresponde. Os corpos em plenitude pornográfica suam debaixo do foco de luz. Ela grita de eventual prazer em linguagem universal.

Deitados no chão lambem-se de forma ávida e invertida. Ritmos treinados de língua apressam trocas de prazer. Chupados momentos depois, ela senta o seu interior profissional cavalgando os minutos seguintes em desenfreados gritos carnais. A imagem vista de cima, revela uns seios em descomunal saltitar. É chegada a hora.

Levantam-se rapidamente enquanto ela abocanha os segundos finais, o gemido treinado dele é o sinal. Tem que se ver. O auge espalha-se pela cara dela e pela garagem. Os dois olham para nós a sorrir.

- Corta!

Dezenas de pessoas à volta começam a andar de um lado para o outro. Baixam-se braços cansados e apagam-se luzes intensas. Ele e ela limpam os restos com indiferença.

- Muito bem pessoal… amanhã filmamos a cena da banheira.




P.S.: Nem tudo o que é profissional é bom...

FRASEANDO #11

O Fócrates está sodido!

Autor Desconhe(u)cido



P.S.: Outra estreia!

CLUBE DE LEITURA – A votação que se segue

E na quarta volta todos iam à frente. Todos queriam ganhar, mas o lugar mais alto do pódio é sempre solitário. No entanto, muito nos regozijou o olhar ao ver tantos concorrentes (pela primeira vez) na linha de partida.

E é pela minha alegria, e pelo meu agradecimento, que faço alinhar todos os concorrentes na votação deste quarto livro. Têm muito por onde ler. Escolham, pensem, apostem, votem. Invistam no vosso preferido.

Aqui vão, alinhados por ordem de chegada, sem preferências:


1 – No Dia em que Fugimos Tu Não Estavas em Casa – FERNANDO ALVIM



2 – Letra e Música – PAULO CASTILHO



3 – Uma Casa na Escuridão – JOSÉ LUÍS PEIXOTO



4 – O Último Cabalista de Lisboa – RICHARD ZIMLER



5 – A Montanha da Alma – GAO XINGJIAN



6 – O Jogo do Anjo – CARLOS RUIZ ZÁFON



Vão ser 10 dias de luta intensa pela vitória. Podem votar em mais que um. Que ganhe o que ganhar! Relembro que O Solista continua em análise, e os outros todos para trás também. Boas leituras.

Adaptações


Parece-me uma troca justa. Obama fica com um cão português e os portugueses adoptam o seu lema de campanha. No entanto, se o cão tem que se adaptar às vicissitudes da vida americana, o lema tem que fazer o mesmo em relação à vida portuguesa. Em Portugal, sê português! Por isso, todos comigo:





P.S. – Pensamento recebido por e-mail. Thanks V.

FRASEANDO #10

Quando nos põem numa vida, não sabemos ser outra.



Dulce Maria Cardoso
In Os Meus Sentimentos


P.S. - Primeira mulher a frasear por aqui. A primeira de muitas, claro...

Mundos paralelos

Entre o meu mundo e o desta senhora, o saldo é positivo em 6 unidades. São estes balanços que dão equilíbrio ao inegável facto de que o mundo pula e avança como bola colorida, entre as mãos de uma criança (neste caso de 8).

No meu mundo era previsto ter menos um, era imprevisto ter menos dois. No desta senhora era previsto ter mais sete (do A ao G), mas eis senão quando surge um imprevisto H a espreitar e a reclamar o seu direito de nascença.




Se no meu mundo se voltam a pintar os cinzentos, no desta senhora a cor é tanta que ela não cabe em si (aliás a questão é como é que eles couberam nela) de contente. No entanto, vai ter que acinzentar algumas das cores que o futuro lhe pinta.

Quando eu nasci para o meu mundo havia um médico para me pôr cá fora. No desta senhora estiveram 46 médicos para 8 bebés, o que dá um rácio de 5 médicos mais 75% de um sexto por cada bebé. A cesariana demorou 5 minutos. Penso que foi pelas 92 mãos que havia para tirar bebés cá para fora.

No mundo da gravidez que me originou, estavam 3 quilos e tal de mim dentro de uma barriga. No mundo da gravidez desta senhora, estavam qualquer coisa como 10 quilos de seres dentro da barriga dela. Será que se mexia?

Neste meu mundo egoísta há espaço para escrever parvoíces. No desta senhora não deve haver tempo nem sequer para pensar. E parece que vai dar de mamar a todos...

The Sound of Words - XI

(conversa entre duas vacas… nos Açores)

- Qué ca quel boi tá fazende?
- Tá corrende desenfreade…
- Ai mê Deus que tá atacande as vacas tôdas!






P.S. – Era para escolher Dimeticona, mas fiquei sem saber o que dizer…


Retemperado (7ª arte, Obituário, Frases e Clube de Leitura)

Passados os momentos passados, descansaram os neurónios da indignação, da dor e da partilha. A, B e C respectivamente. De regresso a lides de escrita, usam-se as bandarilhas do destino para alinhar faenas de esperança e apontam-se os próximos toureios ao futuro que vier.

Em tom de regresso, deixo um apanhado do que fui apanhando nestes dias…


O estranho caso de Benjamin Button

Qualquer cinéfilo amador (que ama) tem que ver este filme, porque tem que ver este filme. Não sei quantos Óscares vale, mas para mim valeu todos os minutos que durou. Fez-me rir, emocionou-me, alegrou-me, fez-me pensar… e isso, é o que eu mais quero dos filmes. O resto, deixo para os “especialistas”.






OBITUEMO-NOS #4

Os museus e a ciência devem-lhe toda uma fundação.


Fernando Bragança Gil
(1927-2009)

P.S. - Atrasado dois dias, mas com a mesma homenagem.



FRASEANDO #9

We’re meant to lose the people we love. How else would we know how important they are to us?


In
Benjamin Button


CLUBE DE LEITURA

Obrigado pelas sugestões, estão todas assentes, e até quinta-feira podem enviar mais. Nesse dia serão postas a votação. No entretanto, O Solista está em fase de comentário...


Retemperar

A redacção informa os seus estimados leitores, que os responsáveis pelas publicações diárias (neurónios A, B e C) se encontram temporariamente ensombrados pelo nojo das circunstâncias.

Uma pausa muito breve para recarregar as canetas da criatividade, seguida de um regresso ao normal universo da partilha escriativa.





Até lá, que tal aproveitar a pausa para sugerir uns livros para o Clube de Leitura?

Até já.

Conto Extemporâneo

Saltou pela janela e estranhou o chão tão mole. Cada passada deixava uma marca de passado impresso. Não sabia o que sabia até então, mas estranhava o ambiente de nevoeiro. Sentia que acordava de um sono tão profundo que nem se lembrava de o ter dormido. Não estava frio nem calor. Não estava nada.

A primeira pessoa que viu nem lhe dirigiu o olhar. Estranhou a indiferença da passagem, mas também é verdade que hoje em dia as pessoas nem ligam umas às outras. Enquanto pensava no caminho das relações humanas avistou mais uma pessoa. Desta vez dirigiu-se com mais convicção e arriscou um sonoro cumprimento:

- Bom dia!

Nem um vislumbre de movimento de olhar na sua direcção. Como pedras atiradas, as suas palavras afundaram rapidamente no lago da indiferença. Entrou numa rua cinzenta de comprimento que só tinha montras dos dois lados. Não se via para dentro delas, mas reflectiam-se umas às outras criando uma sensação de infinito. Quando passou na primeira não conseguiu ver o seu reflexo. Estendeu a mão para o vidro, até tocar, mas não tinha imagem de volta. No entanto, o vidro reproduzia a rua toda e o lado oposto. Estaria invisível? Não podia. Conseguia ver as suas mãos, os seus pés. Tocava-se e estava ali.

Continuou em frente na procura e percorreu todas aquelas montras que insistiam em ignorá-lo não lhe devolvendo o reflexo. A rua desembocava num largo de sensações desconhecidas que estava cheio de caras familiares que se deslocavam avidamente de um lado para o outro no topo de corpos desconcertados. Tentou falar com todos ao mesmo tempo, mas ninguém o ouvia. Atravessavam o seu corpo como se ele não estivesse lá, como se não existisse, como se estivesse preso entre mundos.

Aninhou-se num vão de escada escuro e bafiento. Um cobertor velho serviu para tapar todas as perguntas a que não conseguia responder. Adormeceu no cansaço e na dúvida eterna.




- E aquele ali?

- Aquele… deixa cá ver… aquele… aquele não devia estar aqui! Quem é que o chamou antes de tempo?!

- Isso não sei, chefe! Eu limitei-me a entregar a ficha dele na central.

- Mas como é que essa ficha veio cá parar 40 anos antes da data prevista? Alguém me explica?! Cambada de incompetentes! E agora?!

- Não sei chefe… talvez devolver o tempo dele a alguém da família…

- Seu estúpido! Seu incompetente! O desgraçado vai cumprir o tempo que falta naquele miserável vão de escada! E para que quer a família o tempo dele?!

- Sinceramente não sei chefe… nunca me tinha acontecido um engano destes… podemos pedir desculpa?

- Cale-se seu incompetente! Não diga mais nada…


CLUBE DE LEITURA – O Solista

Enlutados pensamentos percorrem a mente deste blog, mas se é bem verdade que nas adversidades se puxam das frases feitas, também é verdade que há que aplicá-las. E por isso, a vida continua, tudo continua. Os blogs continuam e os Clubes de Leitura também.

Agendado que estava o concerto de partilha, inicia aqui a troca de notas pessoais sobre a interpretação musical de cada um. Um livro original na temática, e na narrativa, que nos lança no compassado mundo da introspecção. Como a minha fluidez de escrita não está nos melhores dias, socorro-me da sinopse da badana para lançar o mote:

Quando o jornalista Steve Lopez vê o sem-abrigo Nathaniel Ayers a tocar de forma tão sentida o seu violino de duas cordas no Skid Row de Los Angeles, fica estupefacto. A princípio, é atraído pela oportunidade de fazer dele o tema de mais uma das suas colunas para o Los Angeles Times. Mas o que descobre sobre o misterioso músico das ruas deixa-o fascinado.

Trinta anos antes, Ayers tinha sido um promissor aluno de contrabaixo da Juilliard - um aluno ambicioso, encantador e um dos poucos afro-americanos - até que, gradualmente, foi vencido por um esgotamento mental. Quando Lopez o encontra, Ayers está sozinho, profundamente perturbado e desconfia de toda a gente, mas ainda é possível vislumbrar nele resquícios desse brilho.

Os dois homens aprendem a comunicar através da música. A sua amizade vai passar por momentos dolorosos, pois Lopez imagina-se capaz de convencer Ayers a abandonar as ruas de Los Angeles. Aos momentos de triunfo segue-se sempre uma desilusão, mas nenhum dos dois desiste. E, embora a intenção inicial de Lopez seja salva Ayers, acaba por constatar que a sua própria vida mudou profundamente.

O Solista, uma obra cativante, comovente e inspiradora, narra a história verdadeira de uma amizade, de uma devoção artística e do poder transformador da música.





Toquem, cantem, partilhem as vossas pautas de interpretação e os tons do vosso sentimento. Ultrapassem a barreira do pensamento e deixem sair as notas de opinião.

Entretanto, comecem a pensar em sugestões para o próximo livro. Quinta-feira (22 de Janeiro) lanço a votação com as contribuições que houver e/ou as minhas. Boas partilhas, e ainda bem que estamos vivos para poder continuar a ler!


FRASEANDO #8

Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada.

Fernando Pessoa




Fernando António Nogueira Pessoa

(1888-1935)