Teatro Gastronómico

Sábado que começou em trabalho, e continuou em trabalho, acabou em teatro. Acabo por nunca perceber a inércia que afasta a maioria de nós desta forma de expressão viva, porque sempre que cedo à inteligência e me deixo assistir, fico encantado com o que vibro. Se em cada três idas ao cinema, fosse uma ao teatro entraria numa sala de espectáculos várias vezes por ano… mea maxima culpa. Mais algum culpado por aí?



O Deus da Matança de Yasmina Reza, em cena no Teatro Aberto, surpreendeu-me pela energia vivida numa sala azul com apenas 1/3 dos espectadores possíveis, o que se notou no arrepio triste do som de poucas palmas (embora reconhecidamente batidas por quem lá estava) no final. Notáveis interpretações (Paulo Pires, Joana Seixas, Sérgio Praia e Sofia de Portugal), muito riso, muita verdade e muito assunto para conversa de jantar.




Por falar em jantar… que extraordinário o restaurante (Pano de Boca) com que nos brinda o cair do pano no Teatro Aberto. Além do ambiente acolhedor e da agradável música ao vivo, podemos deixar-nos levar (eu deixei), por exemplo, por Medalhões de javali com molho de rosmaninho e natas, cogumelos bravos, rösti de batata, couve de bruxelas com bacon e pêra com bagas de murta e depois, porque não, uns Morangos frescos em massa folhada com gelado de baunilha e chantilly. Babam-se-me as teclas só de recordar tudo isto, que se consegue por um preço bastante acessível (com 10% desconto para quem traz o bilhete do espectáculo) e que merecia um muito maior destaque da parte de comunidade gastronómica. Adorei e espero voltar (de preferência em breve).

Sejam amiguinhos dos vossos estômagos, e da vossa cultura, e façam, se não uma, pelo menos as duas coisas. Vão ver como eles agradecem (ambos os dois).

400 Publicações

A minha editora pessoal, emite agora mesmo a sua quadricentésima publicação. A prateleira enche-se de orgulhos e olho para todas as lombadas com um carinho “pouco” modesto de autor. Não pela qualidade, mas pela dedicação e empenho. Estão aqui muitas horas de pensamento escrito e muitas partilhas. Algumas (poucas) maravilhas e outras tantas curiosidades. Pelo meio algumas verdades. Mais à ponta outros intentos. Alguns desalentos.



Dou dois passos atrás e contemplo o padrão formado por todas elas, como num quadro impressionista. Quer dizer, faz-me impressão. Não imprimo nada, mas publico de espanto o facto de uma experiência de escrita virtual se tornar numa realidade viciante. Já não imagino a minha realidade sem o Bilhete de Ida. Nasceu e veio para ficar. Pelo menos por aqui.

Com a revisão editorial desta publicação, surgem todos os pensamentos e os agradecimentos. Porque se o impulso surge de motivação pessoal e o concretizar segue as normas e as ideias do editor cá da casa, a verdade é que sem retorno não havia continuação. É por isso que a todos agradeço e com todos (continuo) a partilhar estas publicações em forma de Bilhete.


CLUBE DE LEITURA – E agora?

Depois de uma Sinfonia que parece ter deixado em Branco a capacidade opinativa de alguns, pese embora o muito que há para dizer, chegamos a mais um porto de escolha. Voltando ao ritmo normal de escolha-votação-leitura-opinião o cruzeiro do Clube segue para as seguintes escalas:

1 - Coração das Trevas – Joseph Conrad




2 – Jaime Bunda e a morte do americano – Pepetela




3 – 333 – Pedro Sena-Lino



Que siga a viagem da leitura e venham de lá esses votos. Como de costume manifestem-se ali na coluna da direita. É mais fácil, mais simples, mais rápido, e muito mais divertido que votar nas eleições europeias. Por isso, nada de abstenções escandalosas, sim?

Boas escolhas.


P.S. - Obrigado mais uma vez, pela sugestão enviada.

Playing For Change – II

Porque nunca é demais divulgar o que é bom, continuo a divulgar o que é muito bom. Dose dupla de Songs Around the World e desta vez com a participação de um tuga lá pelo meio. Para ouvir e chorar por mais.




FRASEANDO #24

O exercício do silêncio é tão importante quanto a prática da palavra.

William James



William James
(1842-1910)

Há sempre alguém satisfeito

Quando os primeiros apareceram, ainda a sua pele estava fria da noite anterior, e começaram logo a desarrumar tudo ao seu redor deixando pegadas parvas na tranquilidade de quem acordava, percebeu que o seu descanso terminara e que depois destes se seguiriam todos os outros. Os olhos descolavam a custo e contra vontade. O sol já espreitava, na sua costumeira e irritante alegria.



O dia prometia a habitual intensidade de trabalho ao calor, a suportar o peso de milhares de pessoas: umas que a pisavam, outras que se deitavam sobre ela, outras que a esburacavam, outras que lhe espetavam chapéus nas costas, outras que a sujavam, outras que jogavam, algumas até roncavam, outras que a construíam, outras que ali estavam e outros ainda que passavam.

Assim foi e assim se cumpriu.

Mais tarde, penosamente mais tarde e com o sol quase escondido, conseguiu dar os primeiros bocejos de algum descanso. Os últimos resistentes arrumavam as toneladas de tralha indispensável para a praia e deixavam impressas as últimas pegadas do dia. Só o mar se sentia e o reino do silêncio começava timidamente a instalar-se.

A noite, que logo se seguiu, era serrada pelo lenhador do tempo e a areia finalmente dormia. Sonhava com um dia chuvoso e sem ninguém na praia. Se ao menos chovesse no dia seguinte…

Dia seguinte: chove desalmadamente. *



* - Qualquer coisa (em litros por metro quadrado) que fica entre a crueldade de não ter alma e a bátega imensa que se abateu hoje. Ao menos há alguém satisfeito!

CLUBE DE LEITURA - O regresso da Sinfonia "esquecida"

Não estava esquecido. Estava difícil de alcançar o tempo, que se mantinha distante. Deo Gratias que há aviões, comboios e viagens que sendo perto se tornam longas.

Primeiro o atraso na obtenção, segundo a demora na leitura, terceiro a surpresa da obra. Que livro! Duro como todas as realidades, mas bom como todas as boas escritas. Uma pedrada na surpresa lusófona, em tons de samba descoberto.



Padece agora de comentários, pois não se pode deixar passar em Branco a primeira incursão deste Clube em terras de bom bordo. Preparem os estômagos da apatia e agucem a vontade de opinar, pois a calma que se vê neste sorriso vindo do outro lado do Atlântico vem em tons de verdade crua e (bem) escrita.



P.S. - Mais três eleitos irão a votos para a semana. Deixem também as vossas sugestões.

Postari III - Milão sem palavras
























Postari – II

Sessioni atràs de sessioni, o tempo (que agora é cinzento) chove de passagem mas continua quente de emoçao. As diferenças dos participantes sao, na verdade, muito iguais de conhecer e os sabores da partilha sao de pasta, pasta e mais pasta.

A cidade agrada pela empatia, que nao se conhecia, e ferve de glamour em cada rua, que se sente nua de preconceitos e até dos mal feitos. As pessoas respiram simpatia. Gosto. O som do falar é de um cantar que encanta, nao me espanta. Quero voltar e conhecer mais. Levo postais, beijos aos demais.




Postari - I

É um posti aqui de Milano, o primeiro de alguns. Muito calor, muita pasta e um hotel muito “merdosi”. A cidade tem um ritmo engraçado e é verdade que abundam pessoas com estilo.

A cultura das duas rodas é impressionante. Engravatados e emprumados, rasgados e outros tarados, saias e agora nao caias, novos e menos também, o filho, o pai e mae... tudo anda de mota e de bicicleta! Que paraiso. (alguns acentos nao existem)

Em 1000 e mais que muitos as trocas partilham-se e a experiencia também. Contactos e mais contactos. Arriverdeci!



P.S. - Ja estive aqui ontem...

Espadana

O Gladíolo Verde de imaturidade cresceu na rua da esperança, dois palmos abaixo do original caule do Gladíolo Vermelho de raiva e adulto de convicções. Cresceu curvo de intenção e sempre teve dores nas costas da alegria, que fugia.



Andou na escola do tempo e chumbou opções, enquanto passava concomitâncias. Apenas o suficiente. Nada de esforço porque a apanha do sol doía nas intenções. Travou-se de razões com a obrigatoriedade e tatuou nas folhas da vida a marca da ignorância, ou seria apenas criança?

Julgou a rigidez plantada e regou orgulho para o caminho, só mais um bocadinho. Água a mais. E agora, onde vais?! Afundou de novo a raiz, afinal já não era petiz, e fincou convicções no destino. Mudou de vaso. Seria para tanto o caso? Foi.

A distância do orgulho não é circunstância, é implicância. Viradas as costas, e os vasos, não há sol que apanhe os dois lados. Quando o Gladíolo Vermelho se sola o Verde insula. Depois trocam. E mensagens também.



O Gladíolo – que já não é assim tão – Verde, está a mudar de cor e a perder a dor. Avermelham-se as batidas do futuro, mas ainda não cresce nenhum verde mais abaixo. Por enquanto. Pasme-se o espanto.

Jorram-se decisões em espadana loucura. Que ternura.

Duplicidade

Jantares e outros ares repetiram-se em vontade de um seguido de outro. (Re)conheceram-se alguns, apresentaram-se outros e confirmaram-se uniões. Mostraram-se divisões. Cozinharam-se intentos em doses de bons momentos e serviu-se sobremesa em pratos de certeza.

O tempo ajudou na passagem e deu mostra de boa imagem. Correu uma boa aragem. Sentaram-se varandas de contentamento e ouviram-se gargalhadas de outro tempo, sem lamento. Suaram-se formosuras, deram-se amostras e outras curas.

Sorriram-se paixões e trocaram-se os olhos da vaidade em noites de muita verdade. Plantaram-se decisões. Lua cheia de alegria trouxe abraços onde já havia e votos de muito boa companhia.

Obrigado por serem bem-vindos, voltem sempre que o vento vos traga e que a vontade seja certa. A porta está aberta.