CLUBE DE LEITURA – Votação seguinte

Junto às três instigações anteriores, a opinião dada e sentida, de que só pode ser bom. Como o filme me impressionou sobremaneira aqui vai o livro para juntar aos eleitos e a eventuais opiniões dos outros membros, do Clube, não do corpo.


4 – O LEITOR – Bernhard Schlink


Amanhã estarão de lado, ali ao lado, para começar a feroz e acesa luta pelo lugar do pódio. No final apenas um vencerá, não há lugar para segundos. Até depois de hoje, podem dar sugestões.

O Leitor

O murro de Berlim. É o que me sugere este filme soberbo que me levou a uma sala de cinema atrás de uma oscarizada Kate Winslet (bem merecido), sem saber muito e sem esperar nada. Ainda bem! Pois é cada vez mais a minha predisposição preferida para descobrir novas emoções cinematográficas. As surpresas sabem a mais e as emoções aumentam no exponencial do desconhecido. Adorei!



Se tivesse ganho o Óscar para melhor filme (era um dos nomeados), também não chocava nada. Confesso que se fosse agora o meu coração de espectador não especialista teria mais dificuldade em votar, embora concorde com o que ganhou, que até foi a minha aposta.

Uma história brilhante, dura (muito dura) a provar que um bom argumento pode facilmente dar um bom filme. Um período conturbado da história mundial visto em perspectivas sobre as quais nem nos lembramos. No fundo, também uma história de amor que me deixa muito curioso em ler o livro para confirmar se o mérito está na origem. Por mim, dou 5 em 5 e considero proibitivo perder este filme.

Pérolas da Sintaxe - 3

- Jogo dificilissimo!

Rui Costa
(director desportivo slb)



M18 – Contos Lúbricos XIII (enfermos prazeres)

Abriu os olhos e o tecto era branco. Deitado em lençóis brancos, sentiu o aperto das brancas paredes a tocar o seu pijama branco. Sentia um cheiro branco a remédio e o dia ou a noite que o envolviam, eram seguramente brancos.

Não sabia se se conseguia mexer ou não, mas sentia-se leve e eternamente jovem. Voltou a fechar os olhos. Voltou a abrir. A ladear o seu leito estavam agora duas mulheres com batas brancas. Os seus olhares eram de um lascivo angelical. Destaparam-no. Despiram-no. Despiram-se.


Enquanto os dentes muito brancos de uma já rodeavam a sua glande excitada, a outra beijava-o com a dose certa de intensidade. Carinhosamente levou-lhe à boca um lindo seio de um redondo branco perfeito com um excitado mamilo em tom rosa maternal.

Mais abaixo, o outro anjo do prazer sentava-se na sua erecção surpreendida oferecendo-lhe o seu interior húmido e quente. De costas para ele e com as mãos nos seus joelhos, dançava ao ritmo lento da penetração num vaivém de brancas nádegas.

Mais acima, outros lábios vermelhos de ansiedade pousavam na sua boca deixando que a sua língua descobrisse todo o seu sabor interno. De costas viradas, os anjos dançavam. Instintivamente viraram-se uma para a outra e trocaram beijos, carícias, mais beijos, mais carícias e mamilos. Continuavam a dançar.


Como num filme, a câmara suspensa percorre o espaço revelando imagens de um homem deitado com duas mulheres sentadas em cima de si, beijando-se de excitação, e oferecendo os seus respectivos segredos molhados, em movimentos de suave luxúria. À volta uma auréola de luz branca.

A conjugação de movimentos e do ritmado prazer atingia proporções celestiais. Os anjos iam trocando de posição, apenas ele permanecia deitado. Na imensidão do tempo e das trocas, atingem o pleno dos três orgasmos numa sequência angelical de um branco estridente. O abafado prazer sorria de branca ternura.

Os dois anjos retiram-se e fecham a porta. Ele adormece de vez e para sempre.


- Podia jurar que ele estava a sorrir enquanto lhe fazíamos a cama.
- Coitado. Preso dentro de um corpo à espera que tudo se acabe, sem sentir, sem sonhar...


CLUBE DE LEITURA – Instigações

Passíveis do ainda comentário angelical, as vicissitudes do Jogo dele ainda deambulam aqui pelo Clube. As participações não têm sido acesas, mas o compromisso inicial permanece erecto: basta um de vós para que tudo continue.

Na senda das causas quase perdidas, seguem as propostas para a votação do próximo livro. Deixo três pontapés de saída, que ficam para juntar com eventuais sugestões de prezados membros. Para a semana a votação estará ali no lado direito.


1 – OS MEUS SENTIMENTOS – Dulce Maria Cardoso




2 – A TÁBUA DE FLANDRES – Arturo Pérez-Reverte





3 – O ÚLTIMO CABALISTA – Richard Zimler




Exposição de Barahona Possollo

Noite de inauguração diferente em tom mais quente. Mas como a Arte é dom de quem cria, muito prezado se viu este artista. Muita qualidade em pintura quase fotográfica, não obstante os temas, mas que a mim ignorante nestas andanças me convenceram pela pincelada.


A exposição está patente de 5 a 29 de Março, na Sala do Veado no Museu Nacional de História natural. Aqui fica o site do autor em jeito de continuação da demanda de divulgação cultural, sobretudo a de qualidade.




A subtileza das mensagens, nas imagens nada subtis (se calhar a PSP ainda aparece por aqui para fechar este blogue) dá força a uma expressão artistíca e pessoal traçada em tons quase tridimensionais. Parece que os quadros nos olham e que podemos tocar aqueles corpos. A não perder.


P.S. – Os pormenores morrem no tamanho. Quando lá forem vejam este papel de parede...

O Tigre e o Zarolho (Conto Chinês em qualquer país)

Numa floresta de cimento urbano, mas verde, vivia um Tigre que não era zarolho e um Zarolho que não era tigre. Eram amigos desde a infância e suavizavam o passar dos anos em animadas conversas de índole Marxista/Leninista numa perspectiva de implante político de silicone opressivo e obsessivo.

Juntos se consideravam e olhavam o mundo (um deles assim de esguelha) na ilusão jovem de quem consegue tudo e não tem muito com que se preocupar. Até que um dia, já depois de ter saído de casa dos pais, o Tigre foi despedido da fábrica de automóveis onde trabalhava ia já para uma mão cheia de anos, mas vazia de indemnização.



Caído nas malhas do subsídio de desemprego começou a perder o lustre nas riscas e a pose felina, enquanto se arrastava de formação em formação pelos centros de emprego à espera de uma proposta milagrosa. Enquanto isso, o Zarolho ia subindo degraus na sua gorda carreira de sócio/gerente de uma fábrica de óculos escuros, que aliás usava sempre - dia e noite.

Errado dia, cruzam-se no corredor da casa que partilhavam, e momentos antes de o Zarolho falhar a porta da casa de banho e dar uma marrada na ombreira, o Tigre cai de fome aos seus pés. Surpreendido, o Zarolho fecha um dos olhos e repara pela primeira vez como ele estava pálido e magro. Umas malgas de água com açúcar depois, o Zarolho deixa cair o queixo (que o Tigre comeu logo tal era a fome) ao inteirar-se de que o seu amigo de vida, e de casa, estava no desemprego, sem dinheiro e com fome, quase há 1 ano.

Sentido vergonha na já rubicunda face, acalmou o Tigre dizendo-lhe que não se preocupasse porque tinha muito dinheiro no BPN e ia ajudá-lo. Aliás, estava com ideia de investir num negócio de um Freeport e ia nomeá-lo gestor do projecto.

Alguns dinheiros depois o Tigre perdeu a palidez e a fome e ganhou prosperidade financeira, ao mesmo tempo que abraçou a carreira política. Fundou o PND (Partido do Novo Dadaísmo), uma nova força de extrema esquerda e direita com assento no meio. Perdeu as riscas de vez e ganhou pêlo na venta, sendo por isso, agora, um Leão.

Entretanto naquela floresta, rebentam alguns escândalos que afundaram o Zarolho (qualquer coisa a ver com o banco parece), mas mantiveram o Tigre, isto é Leão, bem à superfície da conjuntura político-social. O Zarolho tentou fugir para o Brasil, mas esqueceu-se de fechar um olho e comprou um bilhete para Braga. Acabou por se envolver numa empresa de parques, mas deu rolho também.





Moral da história: Em terra de zarolhos, quem foge às riscas é o rei!

The Sound of Words - XV

- Ganda jogo pá!
- Olha, olha… queres ver… rematou… gooolooo!!!
- Ah que Tonel, ganda golão!






P.S. – Para os menos familiarizados, aqui está ele: António Leonel, conhecido no futebol por Tonel!


FRASEANDO #15

A amizade pode terminar em amor, mas o amor em amizade - nunca.

Charles Caleb Colton


Charles Caleb Colton
(1780-1832)

Hoje sim (zento)

Cinzentos são os ventos da discórdia. As palavras que se dizem, e escrevem, podem ter todas as cores que lhes quisermos dar, mas também podem não ter nenhuma. Nem tudo é preto e branco e não se pode descartar a mistura das duas: o cinzento.

Cinzentas são as injustiças nas análises comportamentais dos indivíduos. As atitudes que se tomam nem sempre são o reflexo do coração, mas sim o da cabeça. Quem és tu para me apertar o pescoço à espera que cuspa respostas claras?! Acções? São contradições. Mas é disso mesmo que somo feitos.

Hoje também podia escrever sobre muitas coisas, mas não. Não escrevo sobre nada e no entanto digo tudo. Que é quase nada. A pressão do ambiente circundante faz parte do mergulho da vida: é preciso aprender a respirar nele. A dor que nos impele num sentido não se explica, sente-se! Somos sabão em mão que aperta, quando se escapa não se sabe bem onde vai parar.



Hoje podia escrever sobre o cinzento. E escrevo. Faço desta cor a ode à loucura que é viver. Erguer das trevas sem força para o fazer tem este preço. Quem és tu para me criticar o que não faço?! Decisões? São opiniões. E é segundo elas que vivemos.

Cinzento é o texto que não se percebe, mas que se sente. Gritar é o silêncio de amar no escuro, sem futuro. Ouvir é o reflexo do sabor amargo da injustiça. As traições, não se sabem que o são até que elas aconteçam. A verdade será sempre lei, mesmo que não se perceba. Nem tudo é preto e branco.

Quem és tu para querer colorir o meu cinzento?!

O Nome da Rosa

Umberto Eco(ou) ontem no Convento de Cristo em Tomar para nós (e para outros 60) como o faz desde 2004, numa peça que dura 3h + 6 momentos de refeição, o que dá qualquer coisa como 5 horas, mas das pequenas, porque o entusiasmo é tal que não se dá pelo tempo a passar.




A originalidade desta representação (muito característica dos Fatias de Cá) transporta o publico com os actores pelas salas do convento, com 6 passagens pelo refeitório (excelentes para retemperar forças, comer e discutir animadamente sobre o que se viu e o que se irá ver) numa adaptação fantástica, diferente, envolvente e empolgante deste emblemático romance. É verdade que nada substitui a leitura e a 7ª arte que me perdoe (e o Sean Connery também), mas estar ali ao lado dos actores (na sua maioria amadores, mas com grande brio) a viver a história em todas as salas, andar com eles, comer com eles e sentir cada momento na pele (frio incluído), dá uma imensidão muito mais vibrante da história.

Vale toda a distância percorrida, a hora a que termina a um Domingo (+/- 23h), com o posterior regresso, e o preço (que é irrisório em relação a tudo o que oferece). Permite conhecer o Convento de uma maneira diferente e em sítios onde normalmente não se tem acesso, é um excelente meio de divulgação cultural e do património e merecia uma muito maior divulgação. Uma peça que está em cena há tanto tempo e que é mais conhecida pelo boca a boca do que por qualquer outro meio.



Temos que divulgar e ter orgulho nas coisas boas (aliás, muito boas) que se fazem por cá. Uma experiência totalmente diferente não só em termos de teatro como de gastronomia. É escandaloso, eu diria quase criminoso, perder a possibilidade de viver esta aventura.

Como bónus, e para tornar tudo ainda mais excitante, podem sempre deixar a carro aberto com a chave na ignição durante 6 horas em frente ao Convento, a ver se têm sorte. Nós tivemos!



Estrela-do-mar (uma história infantil para adultos)

Foi uma vez uma estrela, que já era mas ainda não tinha sido, do mar. Estava no fundo de um oceano de tempestades, mas mantinha sempre a mesma tranquilidade singela de um repouso sereno, mas expectante na procura.

Certo dia, que foi certo pelo destino, decidiu mover-se de uma rocha para outra para procurar um melhor abrigo, das intempéries de vida e do pouco alimento situacional da sua posição. Esta movimentação, que pela curta distância aparentava ser segura, foi interceptada por um Tubarão de Sesimbra que vagueava nas redondezas em busca de alimento.



Aparentemente assustada, a Estrela-do-mar tentou ficar muito quietinha para que o Tubarão não a visse e seguisse o seu caminho. Só que este tubarão tinha umas lentes (com desconto igual à idade) e topou logo aquela estrelinha assustadiça. Aproximou-se de dentes afiados e… não fez absolutamente nada! Embasbacou-se, emparvalhou-se e deixou-se ficar de boca aberta.

Seria um tubarão temático? Pensou ela, desiludida por não ter sido comida. Não satisfeita com a desfeita, afinal tinha-se movimentado no seu melhor vestido Carmim Fundo, decidiu enviar flores com chupas ao Tubarão para que ele não se esquecesse da sua atitude tão pouco condizente com um macho da sua estirpe aquática.

Águas passadas sobre a recepção das mesmas (flores com chupas), o Tubarão indaga por mais movimentações da Estrela-do-mar e numa tentativa de salvar a honra tubaronense envia uma mensagem por búzio electrónico a agradecer as mesmas (flores com chupas). A partir daí várias mensagens se trocaram (por búzio e telefone de concha) em direcção a outros mares nunca dantes mergulhados.

No entanto, o Tubarão nunca mais se decidia a comer a Estrela-do-mar (o que a deixava profundamente, de profundidade, furiosa) e esta não foi de modas (até porque sempre vestiu atitudes diferentes): voltou à carga com uns deliciosos biscoitos em formato de gengibre do mar, que deixaram o Tubarão profundamente extasiado, especialmente da barriga.

Algumas trocas depois e um doce telegrama via Express-Fish, decidiram encontrar-se para partilhar um belo bife (de atum) com ovas a cavalo e molho portugália aquática. Vários encontros se seguiram até que um dia a Estrela-do-mar convida o Tubarão para conhecer a sua rocha da alta e quando finalmente o Tubarão se preparava para a comer (à Estrela) ela esfrega o seu cavalo-marinho pela paredes da garagem da rocha, numa atitude de demonstração de poder profundamente feminino, isto é, contraditório.

Deliciado com aquela demonstração, o Tubarão entusiasmou-se e começou a viajar para Sul com frequência para estar com a Estrela-do-mar na sua rocha da praia. Às vezes era ela que viajava para Norte.

Decidiram parar com as viagens e juntaram-se na mesma rocha onde ainda hoje vivem. A Estrela-do-mar atubaronou-se e o Tubarão tornou-se estrelado. Não se percebeu bem como se fundiram, mas alguma coisa aconteceu e os dois estão vivos e felizes.




Adenda Infantil - Vá lá alguém perceber o moral desta história. Crianças: não digam aos vossos pais que eles se comem porque não há nada por escrito.

Adenda Adulta – É claro que ninguém come ninguém e podem contar esta inocente história aos vossos filhos. Afinal é só amor entre espécies diferentes.

Adenda EspecialParabéns!

Adenda Temporal – Esta história foi ontem, mas a validade é eterna.