Aperto de Não

Sentado na espera do nada, esperei que o destino chegasse diferente. Sabia de cor o salteado do que sempre foi, mas uma esperança sempre se rega. Pode ser que cresça.

Não cresceu.

Esperancei dias de sol entre neblinas e nevoeiros matinais, os tais. Soprei as nuvens da cinzenta razão e provei o algodão doce em deglutir salgado. Abri as janelas do tempo para deixar passar a luz. Pode ser que ilumine.

Não iluminou.

Subi escadas de passado e espreitei portas de futuro com a convicção do presente. Apertei mãos de conveniência e dei palmadinhas nas costas da ilusão. Pode ser que sinta.

Não sentiu.




Levantado na madrugada do ontem, sinto cansaço no corpo de amanhã. Tenho dores nas articulações da alma e não consigo correr no caminho da esperança. Gritei na mensagem do interior. Pode ser que ouça.

Não ouviu.

Revelei cartas de angústia em envelopes de revolta. A letra de tinta permanentemente marcada em papel crivado, escorria sangue de intenção. Pode ser que leia.

Não leu.

Saltei barreiras de silêncio em metros revelados. Comemorei datas de imposição em vitória de consumo sem sentimento ganho. Conquistei (im)posições em maratona desconhecida. Pode ser que saiba.

Não sabia.

Sentado de tanto esperar, nadei nas palavras vividas e mergulhei por baixo dos sentidos. Em dia de linhas oferecidas conjugo verbos de vergonha em textos de ansiedade. Pode ser que escreva.

Já escrevi.


4 Bilhetes Comentados:

f disse...

Mesmo q o destinatário não leia, oiça, receba, olhe, regue ou se importe com a tua mensagem, fica-te sempre o mérito, a maturidade, a experiência, a segurança, a inteligência, a sensatez, a evolução, o alívio de a teres enviado. Não te arrependas, estás certo no caminho certo.
Well done, ou como se diz na Marinha, Bravo Zulu!

RL disse...

Caramba! Nem que me demore a vida, este texto vou mesmo comentar. Não será para já porque a deglutição vai ser longa. No entanto, aqui e agora, vou adiantando: o que F (da Marinha) disse, está certo, está solidário, tem ternura e tem amor. O que escreveste configura uma vitória: e não conheço vitórias que não sejam duras, suadas, sofridas; que não sejam resultado da luta e da força enorme do querer! Li há muito tempo, já nem sei aonde ( e portanto a idéia não é minha): imagina que escreveste este texto, na areia de uma praia com a maré baixa. Mais tarde ou mais cedo a maré vai subir...
Penso que o teu texto poderia ter terminado de outro modo: "já escreveu". Pois, mas também, se olhar para a última fotografia, é-me difícil entender como uma personagem tão manietada, tão amarrada, possa escrever alguma coisa. Esperemos que as cordas sejam metafóricas; assim talvez se rompam facilmente.Ou talvez alguém dê uma ajuda para as romper...quem sabe? Só então poderá escrever. Tenho em mim que há-de escrever. Tu ao menos já escreveste.
Ms a outra fotografia fez-me surgir um pensamento: todo o adulto não é mais que o invólucro de uma criança. e é a partir daqui que a promessa de comentar, nem que me leve a vida, vai ser cumprida.
Nota final( final apenas deste post, claro): aquele texto é do mais bem escrito e sentido que tenho lido, simplesmente brilhante. Arrepiei-me, sofri, pensei e, quem diria? fiquei feliz... "A liberadade está a passar por aqui"

João disse...

Falaste baixinho aí do alto e nós ouvimos...

A tua escrita melhora (Te e Nos). Será que é com a dor!? Ou com a consciência dela?

Uma coisa eu aprendi com o mundo. Só se pode ser feliz se se conhecer bem os momentos de tristeza...Porque tudo é um equilíbrio entre dois extremos. E tu és um extremo de dois equilíbrios, porém equilibrado!

Tens muito para dar porque, de outro extremo, recebeste menos do que querias; do que merecias; do que sentias; do que fazias.

Mas não te esqueças que a vida, a tua que ainda nem vai a meio do texto, dir-te-á aquilo que quiseres e souberes ouvir.

Ainda bem que já não escreves só para ti. Obrigado.

"Well done, ou como se diz na" Arqueologia, para só quando chegares à rocha.

Zé piqueno

Vera disse...

Bruno, lindo!